31 março 2016

"A Arte da Guerra" para políticos corruptos


Se Sun Tzu fosse um político brasileiro, ele diria...


1. Preparação das maracutaias

A Arte da Corrupção é de importância vital para seu projeto pessoal de poder e para suas contas bancárias em paraísos fiscais. É uma questão de dominação ou subserviência, um caminho tanto para o prestígio como para a cadeia. Assim, em nenhum momento deve ser negligenciada.

A Arte da Corrupção é governada por cinco fatores constantes: a Manipulação, a Popularidade, os Recursos, o Companheiro e a Troca de favores.

A Manipulação permite que o político corrupto permaneça no poder e que o povo permaneça dócil, sem se importar com recessões econômicas e sem temer o futuro.

A Popularidade significa Jornalismo e Imprensa chapa-branca; Mentira e Verdade; Noticiários, Investigações e Decisões judiciais.

Os Recursos compreendem Fundos, grandes ou pequenos; Escândalo e Aplauso; Lobbies escancarados e Transferências públicas estreitas; as chances de Abuso e de Embolso.

O Companheiro representa os vícios do oportunismo, da enganação, do egocentrismo, da cara de pau e da flexibilidade moral.

Deve-se compreender por Troca de favores as nomeações de cargos e funções públicas em subdivisões adequadas; as graduações de posto entre os manipuladores de opinião; a manutenção de lobbies por onde as doações chegarão ao partido; e o controle dos gastos com propaganda.

A Política baseia-se na enganação. Por isso, mesmo ao subornar, devemos parecer honestos; mesmo ao defender lobbies, devemos parecer imparciais. Quando formos populares, devemos fazer o mundo inteiro crer que somos honestos; quando impopulares, devemos lutar para que nossos eleitores acreditem que há uma crise global afetando todo o mundo.

O político que ganha uma eleição faz muitos acordos por baixo dos panos antes do mandato. O político que perde uma eleição faz poucos acordos formais antes desta. Portanto, se fazer muitos acordos leva à vitória e poucos, à derrota, onde levará a falta de acordos! É graças a esse ponto que posso prever quem tem chances de ser eleito ou não.


2. Politicando

Quando nos empenhamos na verdadeira politicagem, caso a Ditadura (sutil ou descarada) custe a chegar, as bandeiras dos cabos eleitorais tornam-se pesadas e o entusiamo deles enfraquece. Se você sitiar currais eleitorais e idiotas úteis de seus adversários políticos, você exaurirá sua imagem. Nunca se esqueça: se a campanha for prolongada, os recursos do caixa-dois não darão conta do recado.

Então, quando suas bandeiras estiverem pesadas, seu entusiasmo diminuído, sua imagem exaurida e seu caixa-dois esgotado, outro político corrupto aparecerá para tirar vantagem de sua lerdeza. Aí, nenhum marqueteiro, por mais pilantra que seja, será capaz de impedir a matéria fecal que está por vir.

Agora, quanto a assassinar a imagem de adversários políticos, nossos cabos eleitorais e eleitores devem ser estimulados à ira. Para que possa haver vantagem em derrotar adversários políticos, eles devem ser recompensados; assim, em campanhas ilegais, quando dez mil ou mais votos forem tomados, um cargo comissionado deve ser dado como recompensa para quem tomou os primeiros mil; também, benefícios devem ser dados como recompensa apenas para minorias que tendem a nos apoiar.

Traga promessas eleitorais de casa mas pilhe as promessas de seus adversários políticos; assim, a campanha terá mentiras necessárias para manter-se até o fim. Nossos próprios erros e falhas devem ser atribuídos a nossos adversários políticos, e seus méritos devem ser minimizados e mencionados como se fossem nossos. Os jornalistas neutros devem ser tratados com gentileza e aliciados. Chamamos isso de “Usar propaganda pilantra sobre a imagem dos outros para limpar a nossa própria barra”.


3. Ataque com Marketing e Politicagem

Na prática da Arte da Politicagem, o melhor é subjugar tanto eleitorado como adversários políticos mantendo-os inteiros e intactos. Danificar e destruir não é bom. É melhor recapturar ativistas políticos do que destruir suas imagens; e chantagear adversários com dossiês incriminatórios, documentos reveladores ou fotos embaraçosas do que expô-los.

Assim, concorrer e vencer todas as eleições não é a suprema excelência; a suprema excelência consiste em quebrar a resistência do eleitorado sem queimar o próprio filme. Portanto, a mais elevada forma de politicagem é frustrar os planos dos adversários; a seguinte, impedir alianças entre eles; depois, atacá-los usando debates e propagandas eleitorais.

A pior de todas as politicagens é sitiar currais eleitorais e idiotas úteis: a preparação de escândalos, bodes expiatórios e cabos eleitorais tomará três anos inteiros e o empilhamento de mentiras contra o status quo e os ideais políticos tomará outros três anos. Neste ponto, o político corrupto, incapaz de controlar seu desejo de poder, investirá com seus cabos eleitorais e, como resultado, um terço deles pedirá por mais cargos comissionados e propinas enquanto as pesquisas de opinião pública continuarão inalteradas. Tais são os efeitos desastrosos de um cerco.

A regra na política é: se seus eleitores e os de seu adversário político estão em dez para um, ignorá-lo; se são cinco para um, forçá-lo a uma aliança; se dois para um, podemos oferecer um referendo. Se as condições são iguais, podemos dividir nosso partido em dois ou mais (para assim garantirmos cargos que, de outra maneira, seriam tomados por nossos adversários políticos); se ligeiramente em número inferior, devemos evitar os adversários; se as condições estão desbalanceadas em todos os sentidos, devemos pedir por asilo político. Ou seja, mesmo que uma campanha possa ser levada a cabo por um partido pequeno e obstinado, no final das contas ele será incorporado pelo partido mais forte.

Há três maneiras para que um político leve infortúnio ao país a fim de permanecer no poder por, pelo menos, uma década:

(1) Comandando o povo para que avance ou recue ignorando o fato de que este não deveria obedecer. Isto é chamado de “Mancar a Economia”.
(2) Administrando instituições democráticas e recursos públicos da mesma forma com que dirige um bando de puxa-sacos e apadrinhados políticos, ignorando as condições necessárias para a obtenção de mão de obra qualificada. Isto causa preguiça na mente do povo.
(3) Concedendo benefícios com discriminação, ignorando a Meritocracia e o Princípio Democrático de Igualdade de Direitos. Isto abala a confiança dos trabalhadores de bem.

Daí o ditado: se você conhece a pilantragem de seus adversários políticos e a sua própria, você não precisa temer o resultado de cem disputas políticas. Se você conhece a pilantragem de seus adversários políticos mas não a sua própria, para cada vitória você sofrerá uma derrota. Se você não conhece nem a sua pilantragem nem a de seus adversários, você sucumbirá em todas as disputas.


4. Baixarias

Os políticos honestos de antigamente primeiro se colocavam fora do alcance de escândalos e depois esperavam pela oportunidade de denunciar os adversários políticos. Manter-se seguro contra escândalos depende de nós mesmos, mas a oportunidade de envolver o adversário político em um escândalo é proporcionada por ele próprio.

Assim, o político pilantra é capaz de manter-se seguro contra escândalos mas não tem certeza quanto a denunciar o adversário político. Daí o ditado: um corrupto deve denunciar um esquema sujo quando não fizer parte deste. Não sermos pegos implica em Baixarias Defensivas e pegarmos um adversário com escândalos implica em Baixarias Ofensivas. Manter-se na defensiva indica insuficiente “YIN”; ser alvo constante de ataques, superabundância de “YOUT”.

O corrupto hábil na defesa esconde-se nas brechas mais secretas da lei; o corrupto hábil no ataque resplandece das maiores alturas do Judiciário. Portanto, em uma mão temos a habilidade para nos mantermos fora da prisão e, na outra, esquemas sujos que são completos.

O oportunismo restrito ao alcance da vista do malandro comum não é o ápice da excelência. O que os anciões chamavam de “político honesto” era aquele que não apenas vencia eleições mas também não criava ou era pego por escândalos. Ele ganhava disputas políticas ao evitar escândalos e isto é o que estabelece a certeza da vitória, pois significa conquistar a opinião pública. Por isso é que, na Política, o corrupto vencedor só concorre depois de ter a garantia da vitória enquanto o derrotado primeiro concorre e só depois procura pela vitória.


5. Fingimento

O controle sobre um mandato segue o mesmo princípio do controle sobre uns poucos comparsas: é meramente uma questão de dividir Dinheiro, Poder e Trocas de favores. Lidar com uma grande quantia de dinheiro e poder não é diferente de lidar com uma pequena quantia: é meramente uma questão de instituir Capangas e Laranjas.

Garantir que sua corja suporte o ímpeto de investigações jornalísticas e judiciais e permaneça de bico fechado: isto é garantido através de manobras diretas e indiretas.

Na politicagem, o método direto (Cara de pau e Jogadas duras) deve ser usado para juntar-se à opinião pública enquanto o método indireto (Acordos por baixo dos panos e Jogadas sutis) será imprescindível para assegurar nosso poder. Tais manobras, quando eficientemente aplicadas, são inesgotáveis como a demagogia e as brechas da lei, intermináveis como os desvios de verbas públicas e as propinas. Assim como os mandatos e as eleições, eles chegam ao fim para começarem de novo; assim como os Três Poderes, um lava as mãos do outro para ter suas próprias mãos lavadas mais uma vez.

Esconder desonestidade sob um manto de lisura é uma simples questão de mentir. Ocultar cumplicidade sob uma desculpa de “Eu não sabia de nada” pressupõe uma fonte latente de cara de pau. Mascarar culpa com indignação depende de treinamento. A Indignação simulada requer disciplina perfeita. O Desconhecimento fingido requer coragem. A Honestidade aparente requer poder. Isto é Fingimento em seu mais alto grau.

O político pilantra vigia os efeitos das mentiras combinadas e não espera muito de idiotas úteis. Daí sua habilidade para escolher os comparsas certos e utilizar mentiras combinadas. Quando conta mentiras combinadas, o político pilantra é como um santo ou um mártir – pois é da natureza destes permanecerem serenos em relação a assuntos cotidianos e discursarem quando um escândalo ocorre; a atuarem sozinhos quando forem sábios e a liderar uma horda de demagogos fanáticos quando forem hipócritas. Desta forma, as mentiras elaboradas por um político hipócrita são como o ímpeto de uma horda de demagogos fanáticos linchando um pequeno grupo de cidadãos esclarecidos. Há tanto a falar sobre o assunto Fingimento!


6. Oportunismo sociopata

O político corrupto já eleito estará descansado para a próxima campanha eleitoral; o político corrupto não eleito e que ainda dependa da indicação do partido para conseguir um carguinho comissionado terá sua imagem desgastada. Assim, o político pilantra impõe a sua vontade sobre aliados e adversários e não permite que estes lhe imponham as deles.

Uma campanha política pode obter muitos votos sem problemas caso marche através de redutos eleitorais onde o ensino superior não está presente. Podemos ter certeza do sucesso de nossa campanha se buscarmos apenas por eleitores desinformados. Podemos garantir a segurança de nossa imagem se mantivermos apenas promessas eleitorais que estejam em conformidade com a cartilha do Politicamente Correto. Oh, divinas artes Surripere e Hypocrisi! Através de vós aprendemos o que deve ser invisível ou visível, inaudível ou audível; para daí tomarmos os cargos de nossos adversários políticos em nossas mãos!

Podemos ferrar nossos adversários e ficarmos absolutamente numa boa caso miremos no rabo preso deles; podemos nos safar da cadeia se nossos contatos forem mais rápidos que os promotores, juízes, policiais e jornalistas.

Se não desejarmos aparecer nas manchetes, podemos impedir que a mídia nos denuncie mesmo quando as linhas de nossas maracutaias estejam claramente traçadas fora da lei – tudo o que precisamos fazer é jogar algum factoide bizarro e inexplicável aos jornais.

Quanto aos esquemas sujos, o político pilantra os cria; o malandro comum tira vantagem deles; e o eleitor desinformado sequer os percebe. Oculte seus esquemas e você estará salvo da curiosidade dos mais sutis jornalistas, das maquinações dos mais honestos servidores públicos. Qualquer cidadão razoavelmente informado pode ver os truques sujos através dos quais eu conquisto meu mandato – mas o que ninguém pode ver são os esquemas através dos quais os desvios de recursos públicos evoluem.

Esquemas políticos são como o Lodo, pois ele estraga objetos limpos e arrasta-os para baixo. O Lodo forma sua imundície de acordo com a natureza do solo sobre o qual ele escorre; o político corrupto cria seus esquemas conforme o Espírito de Justiça que ele enfrenta. E mais: do mesmo modo que o Lodo retém sujeira, também na Política não há honestidade permanente.

Aquele que modifica seus truques sujos conforme os eventos políticos, que tem sucesso na manutenção do poder e no enriquecimento ilícito e, ainda assim, é adorado por seus eleitores deve ser aclamado como um Político Nascido do Inferno.


7. Manobras políticas

A dificuldade das manobras políticas consiste em transformar o ilícito em lícito; os recursos públicos em negócios privados; as instituições democráticas em ferramentas de aparelhamento do Estado; a mídia em ferramenta de manipulação da opinião pública; o clientelismo em mérito; o servidor público em malfeitor; o criminoso em vítima.

Mas devemos ter cuidado ao criar bodes expiatórios ou ao exaltar os ânimos de nossos eleitores: manobrar uma manada de cabos eleitorais e manipular milhares de idiotas úteis é vantajoso; manobrar uma horda de fanáticos demagogos e enfrentar uma manifestação com milhões de cidadãos indignados é perigoso demais.

Portanto, exercer um mandato sujo e corrupto seduzindo a opinião pública para fora do seu caminho e, sem levantar suspeitas, forjar um rentável e poderoso esquema, demonstra o conhecimento do artifício do Desvio de recursos públicos.

Na Política, pratique a dissimulação e você terá sucesso. Quer concentrando, quer dividindo a opinião pública, a decisão deve ser tomada somente em conformidade com suas próprias necessidades. Que seu fingimento seja como o de um vigarista, que sua corretividade política seja como a de um eco-chato! Ao desviar recursos públicos, seja como um assaltante de bancos ou um sequestrador; ao fazer negociatas, seja como um terrorista!

A Constituição diz: na Democracia, os Direitos Individuais não vão longe o suficiente: daí a criação das Instituições Democráticas. Nem os eventos cotidianos podem ser claramente observados: daí o suporte à Educação e aos Meios de Comunicação. Cargos nomeados e Lobbies, Marqueteiros e Discurso Politicamente Correto: estas são as maneiras através das quais os ouvidos e os olhos da manada são enganados pelas mentiras de um político. Quando a manada é formada por uma única e obtusa mente, torna-se impossível tanto para o esclarecido fazer oposição sozinho como para o idiota útil aplaudir sozinho. Esta é a arte de lidar com grandes massas de cidadãos. Para assuntos importantes, use e abuse de Cargos nomeados e de Lobbies; para assuntos cotidianos, de Marqueteiros e do Politicamente Correto.

Não denuncie um adversário político que esteja simulando um escândalo. Não ataque eleitores que sejam esclarecidos. Não aceite uma propina oferecida por um jornalista disfarçado. Não interfira com eleitores que estão retornando ao emprego. Quando cercar um cúmplice sob investigação, garanta-lhe um habeas corpus e não pressione a esposa desesperada dele. Esta é a arte de “Guardar Esqueletos no Armário”.


8. Variações das manobras políticas

Quando em crise política ou econômica, não seja pródigo. Em situações onde altos interesses se encontram, una-se a poderosos lobistas e a políticos corruptos estrangeiros. Não se demore em posições perigosamente isoladas. Em situação de ataque por Jornalismo Chapa-Branca, recorra a estratagemas. Numa posição desesperada, lute por um habeas corpus.

Há propinas que não devem ser aceitas e servidores públicos que não podem ser subornados; instituições democráticas e meios de comunicação que não devem ser sitiados; nomeações de cargos que não devem ser preteridas; e pedidos do eleitorado que não devem ser obedecidos. O político corrupto que compreende inteiramente as vantagens relacionadas às variações das manobras políticas sabe como manipular seus eleitores e, quiçá, as próprias eleições. O político corrupto que não entende isto pode estar familiarizado com as configurações das propinas mas será incapaz de transformar pesquisas descaradamente fraudadas em situações plausíveis.

Existem cinco maravilhosos defeitos que podem afetar um político corrupto:

(1) Malandragem, que leva à corrupção;
(2) Egocentrismo, que leva ao carisma;
(3) Temperamento ganancioso, que o leva a ser atraído pelo poder;
(4) Ausência de honra, que o torna insensível à vergonha e
(5) Negligência para com os seres humanos, que permite a ele se tornar poderoso e rico.

Estes são os cinco pecados básicos de um político corrupto, úteis para a condução da Política. Quando um partido opositor é derrubado e seu líder é preso, a causa (seja direta ou indireta) certamente poderá ser encontrada entre estes cinco agradáveis defeitos. Medite a respeito deles. 


9. A Marcha Política

Entraremos agora nas questões do acampamento do partido e da observação dos sinais dos adversários políticos.

Passe rapidamente por redutos eleitorais com alta escolaridade e mantenha-se em vizinhanças com eleitores sem instrução. Acampe com seus ideais políticos em locais altos, junto à Democracia. Não escale até a alta sociedade para lutar por votos, mantenha-se com a classe trabalhadora, acima dos miseráveis.

Após cruzar um sindicato, você deve afastar-se dele. Se você estiver ansioso para fazer um comício, você não deve enfrentar um adversário próximo a um sindicato que ele possa cruzar.

Quando uma questão invasiva surgir em um debate, não avance sobre assuntos relacionados a ideais políticos ou programas sociais. É melhor ser escorregadio, pois os danos a longo prazo que surtirão de suas palavras podem ser irreversíveis.

Todo político corrupto prefere eleitores ricos a pobres e idiotas úteis a extremistas. Ao mesmo tempo em que nos distanciarmos dos miseráveis e dos extremistas, devemos fazer com que o adversário seja cercado por eles; enquanto passamos a perna em todos, devemos fazer com que os primeiros fiquem na cola do segundo.

Quando o adversário político está próximo nas pesquisas e permanece quieto, ele está contando com o conteúdo politicamente correto das promessas dele. Quando ele cai nas pesquisas e tenta provocar um debate, ele está ansioso para que uma mentira avance. Se as promessas dele são fáceis de serem desbaratadas, ou é um completo néscio ou está jogando uma isca. O movimento de blogueiros chapa-branca indica que uma calúnia está avançando.

O surgimento de Pesquisas de Opinião no meio dos noticiários significa que o adversário quer fazer com que nossos eleitores fiquem cabreiros. A revoada de Minorias é o sinal de uma emboscada. A debandada de Lobistas indica que uma investigação repentina está vindo. Propostas de aliança desacompanhadas de propinas mútuas indicam um conluio. Se aqueles que são enviados para receber propinas começam a pedir dinheiro para si mesmos, a corrupção do partido político já está institucionalizada.

Começar com soberba para depois temer os números de rejeição do eleitorado demonstra uma total falta de inteligência. Se nossos eleitores não são em maior número que os do adversário, isto é mais que o suficiente, significa apenas que não se pode criar uma calúnia direta. O que podemos fazer é simplesmente concentrar nossos cabos eleitorais, manter os olhos nos cidadãos e obter recursos para ajudar nossos marqueteiros.

Aquele que não pratica a previsão e ainda faz pouco caso de seus adversários políticos certamente será cassado por eles.



10. Redutos Eleitorais

Podemos distinguir seis tipos de redutos eleitorais: Acessível, Emaranhado, Retardador, Passagens estreitas, Cumes escarpados e Posições distantes das grandes cidades.

Redutos eleitorais que podem ser livremente atravessados por qualquer partido político são chamados Acessíveis (Sem instrução). No que diz respeito a redutos deste tipo, antecipe a ação dos adversários políticos, ocupe os locais mais alegres e multiétnicos e, cuidadosamente, comece a sua ladainha Politicamente Correta.

Redutos eleitorais que uma vez abandonados tornam-se difíceis de serem reocupados são chamados de Emaranhados (Escolarizados). Para redutos deste tipo, se o adversário estiver despreparado, você pode mandar ver e acabar com a raça dele. Mas se ele estiver preparado contra seu ataque e você falhar em derrotá-lo, o desastre advirá.

Quando o reduto eleitoral é tal que o partido que atacar primeiro não será capaz de vencer, este é chamado de Retardador (Industriais, Comerciantes e Agricultores). Para um reduto deste tipo, mesmo que o adversário seja um completo pateta, é aconselhável não dar muita trela mas sim recuar e atraí-lo para um debate; então, quando parte dos eleitores dele sair para ver o quebra-pau, poderemos distribuir nossos ataques irônicos com vantagem.

No que diz respeito às Passagens estreitas (Sindicatos, Movimentos sociais e Ativismo estudantil), se você puder ocupá-los primeiro, mantenha-os fortemente guarnecidos e espere pelo advento do adversário político. Caso um oponente impeça-o de ocupar uma passagem estreita, não o persiga se ela estiver totalmente coberta pela imprensa!

No que diz respeito aos Cumes escarpados (Celebridades, Intelectuais e Formadores de opinião), você deve antecipar seu adversário político ocupando os locais mais demagógicos e afetados e, então, esperar que ele apareça. Se o adversário já tiver ocupado tais locais antes de você, não ataque: recue e tente atrair celebridades, intelectuais e formadores de opinião para fora.

Se você estiver em Posições distantes das grandes cidades e a pilantragem dos políticos envolvidos for elevada, não será fácil provocar um escândalo efetivo e um debate será desvantajoso para você.

O eleitor que louva você sem cobiçar recompensas e que defende seu partido sem temer a desgraça, aquele cujas únicas vontades são proteger sua imagem e angariar votos para você é o mais otário de todos os idiotas úteis. Um verdadeiro tesouro.

Trate os eleitores como crianças bobinhas e eles seguirão você nas desculpas mais esfarrapadas; cuide deles como se fossem seus próprios e amados bens e eles ficarão ao seu lado até a eleição de seu sucessor.

Daí o ditado: se você conhece a ganância de seus adversários políticos e a sua própria, sua vitória não será posta em dúvida; se você tem costas quentes nos Três Poderes e o apoio de lobistas poderosos, poderá torná-la completa.


11. Os nove eleitores

A arte da corrupção reconhece nove tipos de eleitores: Dispersivo, Fácil, Controverso, Aberto, De estradas cruzadas, Sério, Difícil, Cercado e Desesperado.

Quando os eleitores não querem “jogar voto fora com um perdedor” e escolhem o político que está liderando as pesquisas, eles são eleitores Dispersivos (Maria-vai-com-as-outras). Com eles, use pesquisas tendenciosas (ou fraudadas!).

Quando os eleitores são hostis para com o papo furado (ideologia política) de seus adversários políticos porém amigáveis em relação ao seu papo furado, eles são eleitores Fáceis (Idiotas úteis). Com eles, recorra diuturnamente a ladainhas politicamente corretas para mantê-los do jeitinho como estão.

Eleitores que praticam voto de protesto importam grande vantagem para qualquer partido: são os Controversos (Rebeldes). Com eles, use fantoches (celebridades e sicofantas são os melhores) e/ou voto de legenda para dar continuidade ao seu plano de poder.

Eleitores que não têm rancores sérios contra nenhum político são Abertos (Indecisos). Com eles, não ataque diretamente adversários políticos usando calúnias asquerosas.

Eleitores ligando três segmentos contínuos do eleitorado, de modo que o político que primeiro os enganar (ou fizer um acordo com eles) terá boa parte da Opinião Pública ao seu favor, são eleitores De estradas cruzadas (Figurões). Com eles, use e manipule programas de TV e redes sociais o máximo que puder.

Quando eleitores são apunhalados pelas costas por um político ou partido, eles se tornam Sérios (Frustrados). Com eles, ofereça um ombro amigo para chorarem.

Anarquistas, Pessoas subversivas, Niilistas e Grupos apolíticos – qualquer eleitor que aponte as falácias da Democracia – são Difíceis (Revolucionários). Com eles, não perca seu tempo.

Eleitores que devem ser evitados a todo custo e dos quais podemos nos desvincilhar apenas através de caminhos tortuosos, pois um simples elogio feito por eles em nossa direção é suficiente para arruinar uma boa parte de nossa imagem, estes são os Cercados (De reputação duvidosa). Com eles, recorra a truques sujos para mandá-los diretamente para o colo de seus adversários políticos.

Eleitores cujos votos só podem ser conquistados lutando sem parar são Desesperados (Sem esperanças). Com eles, vá com tudo em debates e comícios.

Quando os partidos políticos se perdem no Caminho da Corrupção, os cidadãos tendem a perder o senso de mansidão. Se não houver país para emigrarem, eles ficarão fulos. Se morarem em um reduto eleitoral hostil, mostrarão uma atitude obstinada. Se não houver ajuda da imprensa, irão brigar feio na internet.

Deste modo, sem precisarem ser agrupados, os cidadãos estarão constantemente em manifestações contra você; sem esperarem por formadores de opinião, irão denunciá-lo; sem que haja feriados ou comemorações ou eventos esportivos internacionais, eles serão patrióticos; sem precisarem de qualquer estímulo ou recompensa, cada um deles será equivalente a dez ou mais dos seus mais bem treinados cabos eleitorais.

Para impedir que tais problemas ocorram, proíba a propagação de ideais revolucionários – mesmo que você próprio tenha sido um revolucionário, não tenha vergonha de chamar os adversários de “golpistas” – e livre-se de tradições patrióticas. Assim feito, até que o próprio impeachment ou cassação de mandato venha, pesquisa de opinião alguma precisará ser temida.

Tenha cuidado! Se os cidadãos não aprovam programas sociais, isto não ocorre porque desgostem dos pobres; se os gastos deles não são pródigos, isto não ocorre porque estão sem vontade de tomar empréstimos. No dia em que são obrigados a quitar suas dívidas, os cidadãos podem até chorar, os que estiverem sentados umedecerão as vestes, os que estiverem deitados farão correr as lágrimas por suas faces – mas uma vez que estejam completamente falidos, demostrarão a ira de um revolucionário ou de um terrorista.


12. Ataques com o Fogo dos Escândalos e das Baixarias

Existem cinco maneiras de atacar com o Fogo dos Escândalos e das Baixarias.

A primeira maneira é queimar a imagem do adversário dentro do partido dele; a segunda, queimar os recursos desviados por ele; a terceira, queimar as promessas eleitorais que ele quebrou; a quarta, queimar a propaganda política e os jornalistas chapa-branca dele; a quinta, arremessar fogo entre os cabos eleitorais e idiotas úteis dele.

A fim de executar um ataque com o Fogo dos Escândalos e das Baixarias, devemos ter os meios necessários. Dossiês incriminatórios, documentos reveladores ou fotos constrangedoras (sejam reais ou manipuladas) devem estar sempre em prontidão. Existe uma época própria para fazer este tipo de ataque e dias especiais para começar um incêndio. A época própria é quando a Economia estiver bem seca; os dias especiais são aqueles em que o vento da opinião pública estiver voltado para eleições, eventos esportivos internacionais, tragédias ou tumultos, pois jornalistas politicamente corretos com certeza irão jogar gasolina no fogo.

Ao atacar com o Fogo dos Escândalos e das Baixarias, deve-se estar preparado para cinco possíveis situações:
(1) Quando o fogo eclodir dentro dos partidos políticos adversários, responda imediatamente com um ataque vindo de fora.
(2) Se o fogo levantar mas os cabos eleitorais dos adversários políticos permanecerem calmos, aguarde e não ataque.
(3) Quando a força das chamas atingir o fundo do poço, acompanhe com um ataque, se for praticável; se não, fique onde está.
(4) Se for possível oferecer uma denúncia anônima com escândalos e baixarias, não espere por um jornalista chapa-branca; faça seu ataque no momento favorável.
(5) Criar escândalos e baixarias é como plantar vento: você pode colher tempestade. Seja muito cuidadoso quando atacar indiscriminadamente cidadãos ou eleitores de adversários políticos.

Manifestações que nascem da indignação genuína duram muito – mas mimimi afetado de quem segue o modismo hipócrita do politicamente correto não dura nada.

Daí o ditado: o político pilantra planta suas mentiras pensando no futuro; o cabo eleitoral sacana cultiva a ignorância dos eleitores. Não ajude ninguém exceto se puder tirar alguma vantagem; não manipule seus idiotas úteis exceto se houver algo a ganhar; não lute exceto se a vantagem política for crucial.

  Nenhum político corrupto deveria colocar seus idiotas úteis em campanha apenas para satisfazer o próprio ego; nenhum cabo eleitoral deveria provocar cidadãos por diversão.

Com o tempo, a raiva pode dar lugar à alegria e a vergonha pode ser sucedida pela satisfação. Mas uma vez que a imagem de um partido político seja destruída, este nunca mais poderá ficar de boa; nem o político corrupto preso poderá ser (facilmente) trazido de volta a um cargo público.


13. O emprego secreto de Espiões

Levantar uma tropa de milhares de eleitores e enganá-los com mentiras deslavadas entalha cabelos brancos na cabeça do político corrupto e drena o caixa-dois do partido. O gasto diário será por volta de milhões de reais. Haverá comoção de esposas troféus, ex-esposas, amantes e mocreias, e tanto idiotas úteis como cabos eleitorais matarão e enterrarão a gramática na internet.

Partidos adversários podem se enfrentar por anos, rivalizando por uma vitória que é decidida em um único dia. Assim, o que permite ao político pilantra e aos companheiros serem eleitos ou alcançarem coisas além do alcance do pilantra comum é a presciência. Agora, esta presciência não pode ser suscitada pelo oportunismo; nem obtida indutivamente dos fatos; nem através de qualquer cálculo frio. Presciência só pode ser obtida de outras pessoas, de espiões.

Por isso o uso de espiões, que podem ser de cinco classes: Local, Interno, Convertido, Condenado e Sobrevivente. Quando estes cinco tipos de espiões estão todos em ação, ninguém consegue denunciar um esquema sujo. Isto chama-se “Manipulação maldita dos tópicos”. É a capacidade mais preciosa dos sacanas. Espiões podem plantar informações verdadeiras ou falsas e sabotar manifestações, instituições democráticas, programas sociais, decisões judiciais ou mesmo as próprias eleições!

Ter espiões Locais significa empregar sindicalistas, servidores públicos e profissionais liberais pilantras, todos em suas determinadas áreas de expertise.

Ter espiões Internos significa subornar cabos eleitorais e ex-amigos de adversários políticos. A maioria pode ser encontrada entre políticos corruptos com ficha-suja, cabos eleitorais fichados na polícia, comparsas traídos, amantes gananciosas e puxadores-de-saco inconstantes.

Ter espiões Convertidos significa capturar os espiões dos adversários e usá-los para nossos próprios propósitos. Tenha certeza de que seu caixa-dois e seus advogados possam sempre sustentá-los e protegê-los!

Ter espiões Condenados significa ser pego em uma maracutaia e permitir que nossos espiões denunciem às autoridades bodes expiatórios com pouca ou nenhuma informação comprometedora.

Espiões Sobreviventes, finalmente, são blogueiros, jornalistas, intelectuais, juristas e celebridades que manipulam informações, fatos, notícias, julgamentos, pesquisas etc. Eles devem ser sagazes mas terem cara de bobos; acostumados a todos os tipos de trabalhos sujos; preparados para trabalharem em posições inferiores às suas ambições; e capazes de lidar com a vergonha e a ignomínia de serem desmascarados como “paus-mandados de fulano”.

Para destruir um partido, infiltrar uma manifestação ou assassinar a reputação de alguém, é sempre necessário começar levantando os nomes dos capachos, quengas, laranjas e capangas das vítimas. Estes são serviços para nossos espiões.

Daí por que, em todo o partido, nenhuma relação é mais íntima do que as mantidas com os espiões. Nenhuma outra ocupação deveria ser mais bem recompensada e nenhuma outra deveria ser mais secretamente preservada. Espiões são o elemento mais importante da Política porque deles depende a mobilidade do político corrupto.


(este texto é baseado na tradução de Lionel Giles para “A Arte daGuerra” de Sun Tzu)